Judite Macuacua
"Durante 4 dias estive rodeada de pessoas de todo o mundo que estavam a trabalhar na mesma área ou que procuravam investir. Aprendi muito, fiz contactos importantes e acima de tudo deu-me o incentivo e a confiança que precisava”, respondeu-nos entusiasticamente Judite Macuacua nesta interessante e esclarecedora entrevista.
EMRC: Pode-nos dar um breve histórico sobre a sua empresa, a Wissa, como foi criada e a situação atual?
Judite Macuacua:
Tudo começou em 2008 aquando do lançamento de uma Campanha Nacional do Governo de Moçambique para incentivar a produção de cereais de forma a fazer face à escassez de produção interna e diminuir a dependência da exportação. Com a frequência do programa de formação desta campanha consegui conhecimentos de base que lançar o meu projeto de negócio e dai a criação da Wissa.
Comecei com a produção de mandioca porque apercebi-me que havia mercado para este produto. Hoje em dia produzo 300 a 400 quilos por mês e emprego 12 pessoas no campo e outras 2 na parte administrativa da empresa, maioritariamente mulheres.
Tentei também diversificar a minha produção e a partir da mandioca fiz subprodutos. Iniciei a produção de tapioca e de rhale – um subproduto que resulta da mistura de amendoim, açúcar e farinha de mandioca. Este é um alimento altamente nutritivo e muito usado na região para suprir carências alimentares, principalmente nas áreas rurais, onde há mais problemas de nutrição ao longo do ano.
Também tenho outras produções como seja de gergelim, um tipo de oleaginosa, que é muito usado na Turquia, em especial em pastelaria, o que faz com que este produto tenha muito potencial de exportação. Também já fui contactada por importadores das ilhas Maurícias que pretendem que eu avance com a venda de feijão nheemba e IT18, processado em farinha. Um produto muito usado localmente para a alimentação. Outro produto com potencial de exportação, local, nacional e internacional em que também estou envolvida é a produção de amendoim.
EMRC: Por que você decidiu entrar no negócio de mandioca?
JM: Houve uma movimentação do governo para envolver as pessoas na produção agrícola e estavam por essa razão a oferecer formação e know-how . Foi uma oportunidade de ouro para eu conseguir conhecimentos de base essenciais e aproveitei. Olhando para trás posso ver como isso foi uma decisão fundamental para a criação do meu negócio e que beneficiou também outras pessoas que hoje em dia são colaboradoras da minha empresa.
EMRC: Como vê o ambiente de negócios em Moçambique para PME’s como a sua?
JM: Penso que há prós e contras.
O nosso país tem estabilidade e paz e isso teve muito peso no desenvolvimento económico, ao permitir aos empreendedores verem um possível futuro e terem um plano a longo termo. Este é o requisito básico para estabelecer um ambiente que permita a criação de negócios, sendo por isso algo muito positivo para o país.
Contudo, ainda há incentivos de base que são necessários melhorar. Falo em especial elevadas taxas de juros para empréstimos à banca, o que torna impossível às PMEs recorrerem a empréstimos para expandir os negócios.
Também seria importante que o governo desse mais apoios às empresas, principalmente empreendedores nacionais.
EMRC: Diga-nos qual é o maior obstáculo que tem de enfrentar no desenvolvimento do seu negócio?
JM:
Sem dúvida que eu teria que dizer acesso ao financiamento. Eu montei este negócio com dinheiros próprios, porque quando eu vi as taxas que estavam a cobrar por um empréstimo vi que não era possível recorrer à banca. Para iniciar o negócio tive de investir o meu dinheiro o que resultou, mas para ir mais longe e realmente crescer a falta de financiamento limita-me. Preciso encontrar financiamento, mas infelizmente com as taxas de juros tão altas não posso pedir empréstimos e sendo assim não consigo expandir tanto o negócio como gostaria.
EMRC: Qual é o factor mais importante, na sua opinião, para as empresas privadas Moçambicanas alcançarem sucesso nos próximos anos?
JM: Podiam pensar que é o acesso ao financiamento, mas antes disso o fundamental, na minha opinião, é o acesso ao know how. A razão que me fez avançar com o meu negócio foi o acesso a conhecimentos que tive com uma campanha do Governo. Sem isso, não teria sido capaz ou nem teria sequer tentado investir ou procurado financiamento para o meu negócio. É por esse motivo que é muito importante que o Governo apoie mais a formação e desenvolvimento de conhecimentos para que as pessoas em todo o país possam ter conhecimentos que lhes permitam avançar com os seus projectos de negócio. Sem conhecimento não se consegue nada.
EMRC: O que pensa da importância dos eventos EMRC para empresas como a sua?
JM: O meu primeiro evento EMRC foi o Fórum AgriBusiness 2011 na África do Sul e mudou realmente o meu negócio – trouxe-o para um novo nível, assim como as minhas ambições, a um nível internacional. Foi realmente uma boa aposta. Durante 4 dias estive rodeada de pessoas de todo o mundo que estavam a trabalhar na mesma área ou que procuravam investir. Aprendi muito, fiz contactos importantes e acima de tudo deu-me o incentivo e a confiança que precisava. As pessoas ouviram-me e interessaram-se pelo meu projecto.
Desde que participei no Fórum que tenho sido contactada pelos meios de comunicação internacionais e por pessoas interessadas em investir e fazerem negócios comigo. Posso dizer que este Fórum mudou o curso do meu negócio da melhor maneira possível. Acredito que é muito importante para todas as empresas como a minha terem esta experiência, como eu tive, de participarem neste evento.