Durante a sua participação no Fórum Agribusiness em Kampala, Uganda, em Outubro de 2010, Maria Odido venceu o Prémio EMRC-Rabobank Project Incubator, no valor de 15000 USD. Fomos pôr-nos a par de como ela está e fazer algumas perguntas sobre todo o processo: desde concorrer, participar e após ganhar o prémio.

EMRC: Fale-nos sobre a Bee Natural Uganda – Quando é que começou e qual foi a sua visão de negócio?
Maria Odido: A Bee Natural Uganda foi fundada em 2008 depois da minha primeira empresa, a Bee Natural Products Ltd, ter aberto falência. A visão de negócio permanece a mesma que existia na minha primeira empresa: trabalhar com pequenos produtores e em  conjunto produzir um produto de classe mundial e uma marca que viesse das nossas zonas rurais, das quais todos devemos ter orgulho. 

EMRC: Porque participou no Fórum Agribusiness 2010?
MO: Recebi quase por acaso um email enviado pela EMRC dez dias antes do Fórum, convidando-me a estar presente no evento enquanto participante. Ao ler o programa apercebi-me havia também um concurso que atribuía um prémio a empresas incubadoras. Persuadi a minha empresa de que devíamos a concorrer ao Prémio.  Mesmo que não viéssemos a ganhar o intuíto era dar visibilidade á nossa empresa. 

EMRC: O que esperava ganhar com a sua participação no Fórum?
MO: Esperava dar a conhecer a minha empresa a um público mais amplo. Tinha feito grandes progressos na empresa anterior, que tinha na realidade crescido rápido de mais. A minha empresa tinha-se tornado a bandeira do sector agrícola e comercial. Nessa altura, fomos afectados por uma crise que nos levou até ao fundo. Quando recomecei, prometi a mim mesma que teria uma gestão mais focada no crescimento da empresa.

EMRC: O que a motivou a participar no Prémio Project Incubator?
MO:  (I) Informei-me sobre outras empresas que tinham concorrido ao prémio e apercebi-me que a maioria delas era PMEs e que por essa razão não estaríamos desenquadrados.
(II) Senti que a participação da nossa empresa nesta competição iria dar-nos o pretendido destaque no Fórum. Esperava conhecer um investidor ou uma empresa de produção de mel que tivesse interesse em investir e aumentar a nossa produção para que pudéssemos começar a exportar para outros países além da região do Leste Africano, depois de já termos explorado por completo esta região.
(III) Estávamos a criar uma nova gama de produtos – doces e compotas. Queria conhecer consultores que me pudessem aconselhar neste novo projecto, em termos de viabilidade financeira e possibilidades de produção. Não percebia como dois produtos que estavam monopolizados pela Zesta no Quénia, quando o Uganda tinha uma produção tão abundante de frutos. Neste sentido, a participação no Fórum e particularmente no Prémio poderia proporcionar o encontro com profissionais com os quais eu poderia informar-me sobre estas áreas.   

EMRC: O que sentiu quando ganhou o Prémio?
MO: Foi uma grande surpresa! Tinha estado a ouvir as apresentações dos outros concorrentes e estava a pensar que não tinha tanto potencial quanto os outros. Estava quase na falência e teria que voltar ao negócio que quase me tinha destruído. De repente estava a ganhar um Prémio pelas mesmas razões. Foi incrível, nunca tinha ganho um Prémio em dinheiro antes. Pensei "quem são estas pessoas que conseguem analizar o meu negócio para além do que é visível?” Ficarei para sempre grata à EMRC-Rabobank por este reconhecimento. Nunca esperei ganhar o 1º prémio. 

EMRC: Como é que esta vitória ajudou a Bee Natural enquanto negócio? Em que é que o Prémio foi investido?
MO: (i) Recebemos mensagens de parabéns de todo o continente Africano e da Europa. Esperamos ainda vir a ter consultores que nos ajudem a melhorar e aplicar novas tecnologias ao nosso negócio.  (ii) Revimos os nossos produtos e apercebemo-nos de que não seria uma boa opção investir o prémio no negócio dos doces e compotas, uma vez que ainda estávamos numa fase inicial. Depois de uma reunião com os meus colaboradores, decidimos que a melhor forma de investir este recurso seria:
  • Reequipar a nossa colmeia mãe. Desta forma podemos aumentar o nosso volume de negócios com a venda de colónias para os nossos apicultores. Isto iria melhorar e encurtar os períodos de produção para os nossos produtores, gerando consequentemente resultados mais rápidos e uma melhoria nos investimentos feitos na empresa, especialmente para aqueles que tinham contraído empréstimos para comprar colmeias.
  • Juntamente com a nossa colmeia Mãe, introduzímos novos produtos apícolas, tais como mel em favos embalados - uma novidade no Leste de África – e esperamos começar a comercializar creme de mel embalado no final deste ano.
  • Mudamos também as nossas embalagens de plástico para vidro. Tinhamos realizado um estudo de marketing onde o mel tinha obtido o primeiro lugar em qualidade de produto, mas o último em embalagem. Era por isso importante ir ao encontro das exigências do consumidor.   
EMRC: Que outros desenvolvimentos ocorreram no seu negócio desde o Fórum Agribusiness 2010? Como é que os contactos estabelecidos trouxeram um valor acrescentado ao seu negócio? Como é que o prémio EMRC-Rabobank Project Incubator impulsionou o seu negócio?  
MO: Somos levados mais a sério actualmente. Uma avaliação das nossas actividades foi realizada recentemente pela Kilimo Trust, uma organização que financia os nossos produtores a melhorar a sua produção. Entre as várias empresas com as quais estão envolvidos em todo o país, nós fomos uma das 4 selecionadas para o desenvolvimento futuro. Infelizmente, durante o Fórum Agribusiness não fomos para além da troca de ideias com os outros participantes. Talvez porque na altura foi-me impossível participar nalguns debates, visto que não pude estar presente durante todo o evento. Contudo, estamos a crescer na direcção certa neste momento.              

EMRC: Quem deve participar no Fórum EMRC Agribusiness 2011?
MO:
  1. Há muitas pequenas empresas com projectos inovadores nos nossos países. Estas empresas lutam arduamente pelo sucesso, uma vez que a sua dimensão não lhes permite receber apoios de grandes instituições financeiras ou governamentais. Eu quase perdi tudo o que conquistei por ter investido no pequeno produtor rural. Esta é essencialmente uma responsabilidade do governo, mas se eu quisesse este tipo de produção, teria que ser eu própria a produzir. Estas são pessoas que devem ser reconhecidas e em quem se deve investir.   
  2. Os Governos devem participar, para que juntamente com o sector privado possamos encontrar um modelo de produção agrícola que atribua uma função específica a cada um de nós e que desenvolva este sector nos nossos países.
  3. Bancos e Instituições Financeiras. Estas instituições não compreendem a importância que teria a elaboração de uma estrutura de financiamento para este sector, especialmente no Uganda. As Instituições financeiras são muito rígidas não pensam que trabalhar com estas empresas possa resultar numa situação em que ambas as partes possam ganhar. Se isto pudesse ser possível, teríamos muitos mais investidores locais com capacidade para assumirem um papel preponderante no desenvolvimento económico agrícola a longo prazo. 
  4. Grandes empresas, com as quais as PMEs possam debater estratégias e aprender como superar condições adversas ao seu crescimento. As quais poderiam proporcionar também a criação de parcerias e de franchisings.   

EMRC: Dê uma razão pela qual se deva participar no Prémio EMRC – Rabobank Project Incubator?
MO: Ao participar neste Prémio, uma empresa / participante pode obter reconhecimento pelas suas actividades e reunir-se com outras pessoas e organizações, e analisar se o seu negócio está no rumo certo. Ser seleccionado para apresentar a sua empresa a este grande público, quer se ganhe ou não, possibilita um impulso à sua empresa e reconhecimento.  

EMRC: Como é que os concorrentes ao Prémio EMRC-Rabobank Project Incubator devem prepara as suas apresentações? Pode dar algum conselho sobre como fazer uma boa apresentação?
MO:  Recorrer à apresentação tipo Powerpoint parece ser o mais eficaz. Contudo, apesar dos dados e informações serem cruciais para que haja uma boa troca de informação, penso que é também muito importante que os oradores demonstrem o seu conhecimento e compromisso para com o seu negócio. Digo isto porque na minha empresa não há outra maneira de fazer as coisas. Muitos de nós, na situação em que eu me encontrava teriam decidido optar por uma via mais fácil. A ideia de incubação de projectos não é fácil. É importante demonstrar o trabalho que que é feito, os sucessos realizado e os desafios enfrentados. Posto isto a EMRC pode ter uma melhor perspectiva sobre quão bem utilizado pode ser o prémio concedido e desenvolver o negócio a partir dai é mais fácil e efectivo.   

EMRC:  Qual é a chave para a criação de um projecto de negócio sustentável na sua comunidade em África?  

MO: Eu sou uma investidora local. Por esta razão, um projecto de negócio sustentável é de grande importância. África depende de investimento directo estrangeiro, contudo, o nosso papel enquanto investidores locais é ainda mais importante, pois nós temos um melhor conhecimento sobre as nossas comunidades, estamos mais em contacto com a sua realidade e e somos capazes de compreender a sua complexidade. Ao compreender a comunidade com a qual se trabalha, é mais fácil estabelecer projectos e obter sucesso não só para as comunidades como também para as empresas, promovendo um crescimento sustentável a longo prazo nas nossas economias em África.